Castanha-do-pará: quantas podemos comer por dia?

A castanha-do-pará concentra muito selênio, mas o teor varia entre unidades. Entenda por que uma por dia costuma ser suficiente e quando o excesso pode ser um problema.

Pequena porção de castanhas-do-pará sem casca sobre uma superfície clara, com destaque para uma única castanha.

Quando se fala em castanha-do-pará, é comum encontrar uma regra simples: “coma duas por dia”. O problema é que a ciência por trás desse alimento não é tão exata.

A castanha-do-pará — também conhecida como castanha-do-brasil — é uma das fontes alimentares mais concentradas de selênio. E sua característica mais importante para responder à pergunta “quantas posso comer?” é justamente esta: a quantidade de selênio pode variar enormemente de uma castanha para outra. (NIH ODS)

Por isso, para a maioria dos adultos saudáveis, uma orientação prática e conservadora é simples: se o objetivo é obter selênio, uma castanha por vez costuma ser suficiente. Não há necessidade de comer várias todos os dias.

Isso não significa que exatamente uma unidade seja um limite médico ou que duas sejam automaticamente perigosas. Significa apenas que, com um alimento tão concentrado e variável, aumentar a quantidade não traz necessariamente mais benefício e pode aumentar desnecessariamente a ingestão de selênio. (NIH ODS)

Por que a castanha-do-pará tem tanto selênio?

O selênio presente nos alimentos vegetais está diretamente relacionado, entre outros fatores, à quantidade e às formas químicas do mineral disponíveis no solo. Por isso, plantas cultivadas em regiões diferentes podem apresentar concentrações bastante distintas. (NIH ODS)

A castanheira-do-brasil (Bertholletia excelsa) é especialmente eficiente em acumular esse mineral, mas nem todas as árvores e regiões produzem castanhas com a mesma concentração.

Um estudo com amostras de diferentes áreas da Amazônia brasileira encontrou medianas de selênio que iam de 2,07 mg/kg em Mato Grosso a 68,15 mg/kg no Amazonas. A variação também ocorria entre castanhas de uma mesma região. (PubMed)

Esse dado é fundamental: perguntar exatamente “quanto selênio há em uma castanha?” não possui uma única resposta correta.

Quanto selênio precisamos por dia?

Segundo os valores de referência utilizados pelo Food and Nutrition Board dos Estados Unidos, a recomendação de selênio para a maioria dos adultos é 55 µg por dia. Na gestação, o valor é 60 µg; durante a lactação, 70 µg. (NIH ODS)

GrupoIngestão diária de referência
Adultos55 µg
Gestação60 µg
Lactação70 µg

O selênio participa da formação de selenoproteínas envolvidas no metabolismo dos hormônios tireoidianos, síntese de DNA, reprodução e proteção celular contra danos oxidativos. É um nutriente essencial, mas isso não significa que consumir quantidades cada vez maiores seja melhor. (NIH ODS)

Quanto selênio existe em uma castanha-do-pará?

Castanhas-do-pará de diferentes tamanhos e formatos estão separadas sobre uma superfície neutra.

O NIH informa que as castanhas-do-brasil apresentam, em média, 544 µg de selênio por aproximadamente 28 g, correspondentes a cerca de seis a oito unidades. A mesma instituição cita uma estimativa de 68 a 91 µg por castanha. (NIH ODS)

Por essa média, uma única unidade já poderia atingir ou ultrapassar a recomendação de 55 µg para um adulto.

Mas usar essa conta como regra é problemático.

A Tabela Brasileira de Composição de Alimentos registra, para uma entrada de castanha-do-brasil crua, 3.382 µg por 100 g. Nessa mesma referência, 30 g corresponderiam a 1.014 µg de selênio. (TBCA)

Esses valores não significam que toda porção de 30 g comprada no supermercado conterá 1.014 µg. Eles demonstram justamente como determinados lotes brasileiros podem ser muito mais concentrados do que médias internacionais.

Estudos mostram diferenças impressionantes

A variação aparece inclusive em ensaios clínicos.

Em um estudo realizado na Nova Zelândia, duas castanhas consumidas diariamente forneceram, na prática, uma média estimada de aproximadamente 53 µg de selênio por dia. (PubMed)

Em outro ensaio, conduzido com idosos no Brasil, uma única castanha diária foi estimada em 288,75 µg de selênio. (PubMed)

Ou seja: duas castanhas de um lote podem fornecer menos selênio do que uma castanha de outro.

Esse é o motivo pelo qual uma regra baseada exclusivamente na contagem de unidades deve ser tratada com cautela.

Então, quantas castanhas-do-pará podemos comer por dia?

Para um adulto saudável, uma castanha em um dia é uma referência prática suficiente quando a intenção é aproveitar a castanha como fonte de selênio.

Não há necessidade de comer duas, três, quatro ou mais diariamente para “potencializar” seus benefícios.

Também não é obrigatório consumir uma todos os dias. Quem mantém uma alimentação variada recebe selênio de outras fontes, e uma castanha particularmente rica pode fornecer várias vezes a necessidade diária. (NIH ODS)

Portanto:

  • 1 unidade: quantidade prática e conservadora para quando a castanha é consumida regularmente;
  • 2 unidades ocasionalmente: não representam automaticamente toxicidade para um adulto saudável, mas não precisam virar uma regra diária;
  • várias unidades todos os dias: não são recomendáveis como estratégia para aumentar a ingestão de selênio, devido à possibilidade de excesso;
  • um punhado diariamente: pode fornecer uma quantidade muito elevada de selênio, dependendo da origem das castanhas. (NIH ODS)

Qual é o limite de selênio?

Aqui existe uma diferença importante entre autoridades.

O Food and Nutrition Board estabelece um limite superior tolerável de 400 µg por dia para adultos. Esse é o máximo de ingestão diária crônica considerado improvável de provocar efeitos adversos na maioria das pessoas. (NIH ODS)

Em 2023, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) revisou a evidência e estabeleceu um limite mais baixo: 255 µg por dia para adultos, incluindo gestantes e lactantes. (NIH ODS)

ReferênciaLimite superior para adultos
Food and Nutrition Board / EUA400 µg/dia
EFSA / União Europeia255 µg/dia

Esses valores se referem à ingestão total de selênio, e não somente ao selênio proveniente da castanha.

Isso inclui alimentos, multivitamínicos e suplementos específicos.

Comer muitas castanhas-do-pará faz mal?

O consumo ocasional de uma quantidade maior não equivale automaticamente a intoxicação. A preocupação principal é a ingestão elevada e repetida de selênio ao longo do tempo. (NIH ODS)

O excesso crônico pode provocar uma condição chamada selenose.

Entre os sinais descritos estão:

  • queda de cabelo;
  • unhas quebradiças ou perda das unhas;
  • gosto metálico;
  • odor semelhante a alho no hálito;
  • náuseas;
  • diarreia;
  • erupções cutâneas;
  • fadiga;
  • irritabilidade;
  • alterações do sistema nervoso. (NIH ODS)

Esses sintomas não devem ser usados para tentar descobrir sozinho se alguém está ingerindo selênio demais. Se houver consumo elevado habitual, uso de suplementos ou sintomas preocupantes, a avaliação médica é apropriada.

A castanha-do-pará tem benefícios além do selênio?

Pequena porção de castanhas-do-pará aparece ao lado de ovos, peixe, cereais integrais e iogurte.

Sim. Ela não é apenas um “comprimido natural de selênio”.

Segundo a TBCA, 30 g de castanha-do-brasil crua fornecem aproximadamente:

NutrienteQuantidade em 30 g*
Energia202 kcal
Proteínas4,36 g
Lipídios19,0 g
Fibras2,38 g
Magnésio97 mg
Fósforo203 mg
Selênio1.014 µg
Vitamina E1,89 mg

*Valores da entrada específica da TBCA; a concentração de selênio pode variar amplamente entre amostras. Esta tabela descreve composição nutricional, não uma recomendação para consumir 30 g diariamente. (TBCA)

Boa parte da gordura da castanha é composta por ácidos graxos monoinsaturados e poli-insaturados. Ela também oferece proteína vegetal, fibra e minerais. (TBCA)

Isso permite que pequenas quantidades façam parte de uma alimentação variada, sem necessidade de tratar a castanha como um suplemento.

Comer castanha melhora a imunidade?

O selênio é necessário para o funcionamento normal de diversas selenoproteínas e participa de processos relacionados à proteção contra danos oxidativos e à função imune. Isso, porém, não significa que consumir selênio acima das necessidades “aumente a imunidade”. (NIH ODS)

Em pessoas que já possuem estado nutricional adequado, aumentar cada vez mais a ingestão não produz necessariamente benefício adicional.

A castanha pode contribuir para uma dieta nutricionalmente adequada, mas não deve ser apresentada como alimento capaz de prevenir infecções ou tratar doenças.

Castanha-do-pará reduz o colesterol?

Essa afirmação exige cautela.

Uma meta-análise de ensaios clínicos publicada em 2022 verificou que intervenções com castanha-do-brasil aumentaram significativamente os níveis sanguíneos de selênio e a atividade da enzima glutationa peroxidase. (PubMed)

Entretanto, quando os pesquisadores analisaram colesterol total, LDL e HDL em conjunto, não encontraram mudanças estatisticamente significativas nesses indicadores. (PubMed)

Portanto, não é adequado dizer que comer uma ou duas castanhas por dia necessariamente “baixa o colesterol”.

E a saúde da tireoide?

O selênio possui funções importantes na síntese e no metabolismo dos hormônios tireoidianos. Isso faz com que frequentemente a castanha-do-pará seja divulgada como um alimento “para a tireoide”. (NIH ODS)

Mas existe uma diferença entre precisar de selênio para a função normal da tireoide e afirmar que consumir mais selênio trata uma doença tireoidiana.

O NIH relata que os estudos com suplementação em doenças autoimunes da tireoide apresentam resultados mistos e que as evidências não sustentam simplesmente aumentar a ingestão de selênio como tratamento geral. (NIH ODS)

Pessoas com hipotireoidismo, hipertireoidismo, tireoidite de Hashimoto ou outras condições devem seguir o acompanhamento indicado pelo profissional de saúde.

Quem deve ter mais cuidado?

Quem utiliza suplemento de selênio

É o principal grupo que precisa conferir a ingestão total.

O NIH informa que suplementos isolados de selênio podem fornecer quantidades consideráveis do mineral. Somar suplemento, multivitamínico e castanhas muito ricas pode aproximar a ingestão dos limites superiores ou ultrapassá-los. (NIH ODS)

Crianças

Os limites superiores de selênio são menores na infância e variam conforme a idade. Portanto, a regra prática utilizada para adultos não deve ser simplesmente aplicada às crianças. (NIH ODS)

Gestantes e lactantes

A necessidade de selênio muda durante essas fases, mas isso não significa que doses elevadas sejam indicadas. A EFSA mantém o limite superior de 255 µg/dia para adultas inclusive durante gestação e lactação, enquanto o Food and Nutrition Board utiliza 400 µg/dia. (NIH ODS)

Pessoas com alergia a oleaginosas

Quem possui alergia diagnosticada a castanhas ou outras oleaginosas deve seguir a orientação individual do alergista e evitar exposições consideradas inseguras.

É melhor comer castanha-do-pará todos os dias ou alternar?

Não existe obrigação de consumir castanha-do-pará diariamente.

Como uma unidade pode fornecer uma quantidade elevada de selênio, incluí-la em alguns dias da semana também pode fazer sentido dentro de uma alimentação variada. O que realmente importa é o padrão alimentar como um todo.

Essa abordagem pode ser especialmente razoável quando não se conhece a concentração de selênio do lote.

Além da castanha, alimentos como peixes, carnes, aves, ovos, cereais e laticínios também contribuem para a ingestão do mineral. (NIH ODS)

A regra prática

Uma única castanha-do-pará aparece ao lado de um pequeno recipiente com poucas unidades.

Se você é um adulto saudável e gosta de castanha-do-pará, não precisa abandonar o alimento.

O ponto principal é evitar a ideia de que, por ser nutritiva, “quanto mais, melhor”.

Uma castanha por vez costuma ser mais do que suficiente como estratégia alimentar para obtenção de selênio. Não há benefício estabelecido em transformar duas, quatro ou seis unidades em uma dose diária obrigatória. (NIH ODS)

Se você já toma suplementos contendo selênio, tem alguma condição clínica ou pretende consumir castanha diariamente com finalidade terapêutica, vale discutir essa combinação com nutricionista ou médico.

Conclusão

A castanha-do-pará é um alimento nutritivo e uma fonte excepcionalmente concentrada de selênio. Justamente por isso, não precisa ser consumida em grandes quantidades.

Para a maioria dos adultos saudáveis, uma unidade quando consumida é uma referência prática e conservadora, especialmente se o objetivo é obter selênio. Não existe, porém, uma quantidade exata de unidades que garanta sempre a mesma dose, porque a concentração do mineral pode variar enormemente entre regiões, árvores e lotes. (PubMed)

O mais importante é não transformar um punhado diário em hábito sob a ideia de que mais selênio significa mais saúde. O mineral é essencial em pequenas quantidades, mas seu excesso crônico também pode causar problemas. (NIH ODS)

Perguntas frequentes

Quantas castanhas-do-pará podemos comer por dia?

Não existe um número universalmente seguro porque o teor de selênio varia muito. Para um adulto saudável que deseja incluir a castanha principalmente como fonte de selênio, uma unidade por vez costuma ser uma referência prática suficiente, sem necessidade de consumir várias diariamente. Uma castanha média pode fornecer quantidade semelhante ou superior à recomendação diária de 55 µg, e algumas têm concentrações muito maiores. Por isso, “um punhado por dia” não é uma recomendação adequada para esse alimento. (NIH ODS)

Uma castanha-do-pará por dia fornece selênio suficiente?

Frequentemente, sim — e em alguns casos pode fornecer muito mais que a necessidade diária. O NIH cita valores de aproximadamente 68 a 91 µg por unidade, enquanto a recomendação para a maioria dos adultos é 55 µg por dia. Entretanto, amostras brasileiras apresentam variação muito maior, portanto uma castanha não contém obrigatoriamente essa quantidade. A alimentação completa também fornece selênio por meio de peixes, carnes, ovos, cereais e outros alimentos. (NIH ODS)

Posso comer duas castanhas-do-pará por dia?

Duas unidades ocasionalmente não significam automaticamente excesso para um adulto saudável, mas duas castanhas todos os dias não podem ser consideradas uma recomendação universal, justamente porque o teor de selênio varia muito. Alguns lotes apresentam concentrações suficientemente elevadas para que apenas uma unidade forneça centenas de microgramas. Quem também utiliza multivitamínicos ou suplementos de selênio precisa considerar a ingestão total. (PubMed)

O que acontece se eu comer muitas castanhas-do-pará?

O problema principal do consumo habitual em grande quantidade é a possibilidade de ingerir selênio em excesso. A exposição cronicamente elevada pode causar selenose, cujos sinais incluem fragilidade ou perda das unhas, queda de cabelo, gosto metálico, odor de alho no hálito, náusea, diarreia, fadiga, irritabilidade e alterações do sistema nervoso. Esses efeitos estão associados ao excesso crônico de selênio, não ao consumo ocasional de uma porção maior. (NIH ODS)

Preciso comer castanha-do-pará todos os dias?

Não. O organismo precisa de selênio, mas ele pode ser obtido de diferentes alimentos. A castanha é apenas uma fonte particularmente concentrada. Uma dieta variada pode fornecer selênio por meio de frutos do mar, carnes, aves, ovos, cereais e laticínios, entre outros. Como o teor da castanha é elevado e imprevisível, não há necessidade nutricional de transformá-la obrigatoriamente em um “suplemento alimentar diário”. (NIH ODS)

Quem toma suplemento de selênio pode comer castanha-do-pará?

Pode haver sobreposição relevante. Alguns suplementos fornecem dezenas ou centenas de microgramas de selênio por dose, enquanto a castanha-do-pará já é extremamente concentrada nesse mineral. O NIH informa um limite superior de 400 µg/dia para adultos, e a EFSA utiliza um limite mais conservador de 255 µg/dia. Quem utiliza suplemento de selênio regularmente deve somar todas as fontes e discutir a necessidade da suplementação com nutricionista ou médico. (NIH ODS)

Fontes científicas

  1. Selenium — Health Professional Fact SheetNIH Office of Dietary Supplements — 2025
  2. Composição de Alimentos — Castanha-do-brasil, crua, BrasilTabela Brasileira de Composição de Alimentos — TBCA / USP / FoRC — 2026
  3. Scientific opinion on the tolerable upper intake level for seleniumEuropean Food Safety Authority — EFSA — 2023
  4. Natural variation of selenium in Brazil nuts and soils from the Amazon regionChemosphere — Silva Junior EC et al. — 2017
  5. Effect of Brazil Nuts on Selenium Status, Blood Lipids, and Biomarkers of Oxidative Stress and Inflammation: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Clinical TrialsAntioxidants — Godos J et al. — 2022
  6. Brazil nuts: an effective way to improve selenium statusAmerican Journal of Clinical Nutrition — Thomson CD et al. — 2008
  7. Effects of Brazil nut consumption on selenium status and cognitive performance in older adults with mild cognitive impairment: a randomized controlled pilot trialEuropean Journal of Nutrition — Cardoso BR et al. — 2016